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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Duas questões: Onipotência e propósito na evolução

A Igreja Católica não propõe uma teoria científica para a criação, não é o papel dela. No entanto a Igreja ensina, com base nas Sagradas Escrituras, que há propósito de Deus na Criação e ele pode ser percebido pelo homem. Também ensina a Igreja que a ciência verdadeira não se opõe à fé. A conclusão natural para qualquer católico, portanto, é que se uma teoria científica para a criação é verdadeira ela não terá conflito algum com a fé católica. É neste contexto que precisamos entender a oposição de muitas pessoas à teoria da evolução de Darwin. Elas acreditam que a teoria de Darwin elimina o propósito de Deus na criação.

Mas por que pensam assim e, será que isso é mesmo verdade?
Geralmente o primeiro argumento contra qualquer evolução, não só a biológica mas também a do universo, é o livro do Gênesis. Sabemos, entretanto, que do ponto de vista católico não há motivos para acreditar na interpretação literal do relato da Criação. Deve ser compreendido como uma metáfora. De fato, entre os que se opõe à teoria de Darwin, poucos se baseiam numa interpretação literal da Bíblia. Até mesmo porque cientificamente a evolução biológica é um fato mais do que comprovado. A evolução do universo também já foi provada depois que Edwin Hubble verificou observacionalmente a teoria do Big Bang proposta pelo padre jesuíta Georges Lemaître. A física, hoje, não duvida desta descoberta. A expressão de conservação das massas do católico Lavoisier, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, deve ser entendida num sentido mais amplo, cientificamente, de que o paradigma da evolução faz parte da ciência moderna.
A evolução é um fato, a teoria é a explicação do fato. Embora as teorias possam estar erradas e mudar, os fatos experimentais não mudam! Do ponto de vista filosófico e teológico o argumento realmente sério é se a teoria de Darwin se opõe ou não ao Propósito de Deus na criação. Esta é a pergunta que realmente importa. A teoria de Darwin, muito aprimorada depois da descoberta da genética pelo monge agostiniano Gregor Mendel, está baseada no conceito de mutações genéticas aleatórias que acontecem na reprodução. Ao longo de milhares de anos estas mudanças fariam que uma população se aprimorasse, evoluísse, através de vários mecanismos, dentre eles a sobrevivência do mais apto.
É justamente a idéia de aleatoriedade das mutações que gera a grande controvérsia pois significa literalmente que as mudanças acontecem ao acaso, sem propósito. Isso implica (será?) que todas as espécies surgiram ao acaso, inclusive nós. Basicamente existem três posturas frente a essa conclusão: nega-se a evolução, aceita-se a evolução mas não a “aleatoriedade” das mutações ou então aceita-se a evolução e a aleatoriedade mas nega-se a consequência de acaso devido às mutações aleatórias. Como foi visto antes, a primeira postura vai contra tudo que a ciência moderna sabe e contra o que convém chamar de “paradigma evolutivo da ciência”. Para dizer pouco, pode-se falar que não é uma posição defensável com a razão, hoje. E como há séculos a Igreja defende que a fé e a razão se complementam, ir contra o fato (não a teoria) da evolução não é uma boa posição para os católicos. O frade franciscano Roger Bacon, um dos pais do método científico, que o diga!
A segunda posição é conhecida como Design Inteligente”, diz que não há aleatoriedade nas mudanças que acontecem entre uma população e outra, mas que Deus controla tudo. Seus principais defensores tentam lançar mão de uma proposta científica, a complexidade irredutível, para justificar esta posição. Entretanto, argumenta-se muito nos meios científicos que esta teoria não é falsificável e que portanto não é científica. Particularmente, concordo com esta crítica. Não pode-se esquecer que também do lado teológico o Design Inteligente não é bem visto sempre. Muitos alegam, com propriedade, que ele apela a um “Deus das lacunas”, que vive remediando sua criação. Os católicos crêem que Deus cria e mantém a sua obra, porém “manter” não significa “consertar”, apesar do “ato criador” poder se estender no tempo. Mas a ação de Deus no Design Inteligente está mais para remendo do que para criação.
A terceira posição, que me parece mais correta, afirma que não há consequência lógica entre “aleatoriedade na mutação” e “aleatoriedade das espécies”. O propósito de Deus está em ter criado um mundo que tem leis naturais que invariavelmente conduzem ao universo como conhecemos hoje. Se as mutações genéticas são aleatórias, as leis físicas não são e conduzem a natureza para um fim específico, em última análise desejado por Deus, que é o criador destas leis. Uma analogia pode ajudar a compreender esta visão: Imagine um estádio de futebol lotado onde explode uma bomba que faz as pessoas quererem sair do estádio. Cada indivíduo é livre para correr na direção que quiser. De fato, uns correm para a saída e outros não. Ou porque estão perdidos ou porque acham que podem ser pisoteados no tumulto, não se sabe. No final a maioria das pessoas se salvaram. Foi o acaso ou foi porque as pessoas têm uma tendência natural de procurar a saída e o engenheiro pensou nos possíveis canais de fuga quando construiu o estádio?
Seguindo esta analogia é evidente que todos os caminhos que levam da “aleatoriedade da mutação” para o surgimento de uma nova espécie (e nós) podem ser compreendidos como o Propósito de Deus na criação. Há inúmeros agentes biológicos, físicos, geológicos e climáticos que controlam todo o processo. Deus que é onisciente certamente sabe que fim levará sua criação e não precisa interferir desnecessariamente criando olhos aqui, asas acolá. Precisamos refletir bem no significado da onipotência de Deus.
Alexandre Zabot
Físico, mestre e doutorando em Astrofísica


Comentário de "Conspiração Ideológica" resumido sobre Onipotência: "Sabemos que certos conceitos nos escapam da compreensão, como onipotência, onisciência e outros como um tempo sem tempo (já pensou como era o universo ANTES do Big Bang que criou tudo, inclusive o tempo? como era antes do tempo? Opa, se não havia tempo, como havia um "antes"? Racionalmente é possível compreender isso? Digo, SENTIR isso, exemplificar? Quantificar?) : "Sendo Deus onipotente, poderia ele criar uma pedra tão pesada que ele mesmo não pudesse erguer?"

Essa questão não leva em conta que ONIPOTÊNCIA é algo que não podemos compreender... Que com ONIPOTÊNCIA o próprio conceito de ONIPOTÊNCIA, PESO e PEDRA podem ser modificados. Resumindo: Ao propor esse problema, nós restringimos qualquer resposta com base naquilo que conhecemos, conceitos fechados que não levam em conta que a própria onipotência pode fazer, é como dizer ´me prove oq é onipotente, mas desde que essa onipotência não seja onipotente, restrita ao que sabemos e não podendo mudar nenhum conceito nosso, pois do contrário EU não compreenderia...´


Meu comentário: "A onipotência é um dos atributos incomunicáveis do ser divino. Diz-se incomunicável, pois refere-se a um atributo constituinte da natureza mesma de Deus, diferente dos chamados 'atributos comunicáveis', tais como amor, sabedoria, santidade, os quais podem ser comunicados e compartilhados pelas suas criaturas." Logo, não se pode chegar a uma resposta satisfatória sobre essa questão que está associada ao desejo de conhecer a verdade sobre Deus, afinal, Ele existe, ou eu estou falando sozinho quando faço uma oração? O desejo de se chegar a essa resposta é essencial para se ter um propósito na vida, mais que isso, um sentido. Nascer, viver e morrer sem saber "por que" como um animal irracional ou um vegetal, não está no nosso script. Um cego de nascença sabe que não nasceu para ser cego e conseqüentemente não desistirá de se interrogar sobre o porquê da sua cegueira e sobre como dela sair. Só aparentemente o homem se resignou ao veredito de ter nascido cego para o que lhe pertence, para a única realidade que em última instância conta na nossa vida. A titânica tentativa de tomar posse do mundo inteiro, de extrair da nossa vida e para a nossa vida todo o possível, mostra, assim como a explosão de um culto do êxtase, da transgressão e da destruição de si, que o homem não se contenta com tal juízo. Porquê, se não sabe de onde vem e por que existe, não é ele talvez, em todo o seu ser, uma criatura fracassada? O adeus aparentemente indiferente à verdade sobre Deus e sobre a essência do nosso eu, a aparente satisfação por não ter mais de se ocupar com tudo isso, são ilusórios. O homem não pode resignar-se a ser e permanecer, quanto ao que é essencial, um cego de nascença. O adeus à verdade nunca pode ser definitivo; como eu disse na postagem anterior, a verdade pode sim ser descoberta, ainda que seja somente após a morte.

Um comentário:

asysjr disse...

olá, excelente texto. Especialmente a parte sobre evolução. Muito claro e lógico.